Conscientização é a nova moda!
- modasemmisterio

- 22 de jun. de 2020
- 8 min de leitura
Atualizado: 23 de jun. de 2020
Sustentabilidade e consumo consciente conquistam espaço no universo fashion
Por Guilherme Porrino, Júlia Siqueira e Lucy Matos

Saudades de fazer compras no shopping né minha filha? Mas essa roupa, sapato ou acessório que você quer muito comprar é sustentável? Que tal atrelar estilo e consciência? Mudar hábitos faz parte de novas gerações, e ser sustentável é uma das pautas que vem ganhando cada vez mais espaço de discussão na internet e no mundo em geral, principalmente quando o tópico é moda. Afinal, a sustentabilidade é o futuro da moda? Ou apenas uma tendência? A gente te ajuda a responder essa questão.
Ainda que o assunto seja esquecido por muitos, cada vez mais ganha visibilidade. De acordo com dados do site especialista em mercado de moda global Lyst, as pesquisas em relação à moda sustentável cresceram 66% no ano de 2018. A preocupação com esse assunto aumenta a cada dia e a partir dela, movimentos como o Fashion Revolution estão lutando para que esses números continuem crescendo.
Respirando moda sustentável
No entanto, dados como esses não são o suficiente para demonstrar total avanço. É por isso que propostas como as da influenciadora digital Karine Padilha, alteram a forma de pensar nosso próprio guarda-roupa e ajudam ainda mais a levantar a bandeira do sustentável.
Assim, o armário cápsula, termo que surgiu durante a década de 1970, com a estilista Susie Faux, quando ela criou a expressão “The Capsule Wardrobe”, define soluções para se ter um guarda-roupa com peças atemporais e versáteis. Símbolo de confiança para mulheres, Susie, por meio de um desfile que partia de 7 peças básicas, mostrou que era possível misturar estilo e inovação.
Essa ideia se popularizou entre pessoas que defendiam um consumo de moda mais consciente. Hoje, o armário cápsula funciona a partir de 30 peças, variando entre 40 e 50, alternando-as de acordo com a estação do ano. E é esse ideal que Karine segue difundindo em suas redes sociais.
Fotos: Karine Padilha
Olhares para a nova moda
Como o armário cápsula outras opções sustentáveis surgem para ampliar possibilidades de consumo consciente. Uma delas é o upcycling, que surgiu com a ideia de transformar de maneira criativa, subprodutos em novos materiais com maior valor ambiental. Assim, o Up Coletivo Upcycling, surge como um grupo de trocas de experiências com o objetivo de disseminar a consciência, a importância do upcycling e a urgência do tema.
"Upcycling consiste em algumas técnicas que existem para dar um novo ciclo de vida para uma peça, roupa, acessório ou objeto em desuso. Nessa transformação você aplica conceitos de design que podem ser um redesenho ou aplicações. Tem diversos tipos de upcycling, mas um único propósito: aumentar o ciclo de vida desse objeto ou roupa. Temos um up, o produto passa a ter um valor agregado quando ocorre a transformação. Essa é a diferença de uma reciclagem simples, por exemplo. Às vezes quando se recicla um produto, você acaba tendo materiais que não são tão duráveis quanto no seu primeiro ciclo de vida", explica Gaby Loayza, antropóloga e uma das criadoras do Up Coletivo Upcycling.
Para Gaby o trabalho do coletivo ajuda a ressignificar a forma de consumo. "Tudo depende se você se propõe a fazer um trabalho de upcycling entendendo a necessidade da pessoa e como ela pretende se expressar, apontando a contextualização do mundo e mostrando o cenário atual da indústria têxtil. Está sendo feito um trabalho muito educativo no Brasil, aqui o conceito é bem incipiente. Existe muito preconceito sobre o tema, em todas as classes sociais. Existe um tabu em usar roupas antigas e transformadas", diz a upcycler.
Por isso, para ela, o coletivo é uma fonte de informação e de novas ideias: "A disseminação de coletivos, workshops e oficinas, funcionam como um trabalho educativo bem importante. Principalmente em relação à forma de consumo. As faculdades de moda, por exemplo, ainda não tem essa matéria específica, sobre técnicas de upcycling na grade, acredito que daqui a um tempo terão que rever o currículo do curso e incluir".
Loayza explica como o coletivo é capaz de transformar a ideia de moda das pessoas que vão até lá aprender. "Recebemos alguns grupos de estudantes de moda e foi sempre uma troca muito positiva. As pessoas vão, visitam, e temos uma conversa explicando nossos processos criativos. Percebemos que os estudantes saiam com outra cabeça, com um mundo de novas possibilidades, por meio desses métodos de upcycling que utilizamos. Acredito que esse contato e essa disseminação do conceito, não é mais uma tendência, tem que acontecer agora", pontua.
De acordo com ela, nesse período que estamos vivendo cabe reflexão por parte dos consumidores. "Nessa época de quarentena as pessoas têm mais tempo para repensar as suas formas de atuação no mundo e sua forma de consumo. Na cabeça do coletivo, upcycling é sim o futuro da moda. Tudo e todos têm que se reinventar. A expectativa é que as pessoas vão mudar, essa consciência tem sido cada vez mais alta. Até nos últimos desfiles da São Paulo Fashion Week e Casa dos Criadores, grande parte das marcas já estão utilizando muito o conceito, assim como grandes marcas do mundo. É olhar para o assunto de forma mais carinhosa", diz.
Para a antropóloga e fundadora do coletivo o futuro da moda tem que ser sustentável. "As pessoas vão começar, assim espero, a se questionar e se posicionar sobre. Quem faz minhas roupas? De onde ela vem? Com essa marca que está fazendo minha calça trabalha? Como são esses funcionários da empresa? Quem compra precisa optar por essa transparência de dados. Tudo parte desse grau de consciência, se ela não questionar nada, então a indústria de vestuário vai continuar como está, seguindo um modelo muito antigo e nada sustentável", finaliza.
Já para a designer Luci Hidaka, também fundadora do coletivo, trabalhar em conjunto com marcas de upcycling é um processo enriquecedor, cheio de trocas e ajudas mútuas. Ela compartilha algumas experiências, como o Brasil Eco Fashion Week: “Participamos juntos, dividimos os custos da inscrição e fizemos uma escala de trabalho para atendimento na feira”.
O design e produção de peças podem ser aspectos complicados para relacionar com sustentabilidade, para algumas pessoas. Porém, Luci conta que uma resposta para esse questionamento é o Upcycling, porque essa técnica reaproveita produtos já dispostos no mercado. De acordo com Hidaka “marcas que trabalham com upcycling, prezam por não se utilizar de energia ou resíduos químicos e poluentes em sua produção”. Ela afirma que em alguns casos são necessários usar linhas, botões, zíperes e tecidos novos, entretanto os impactos ao meio ambiente são muito menores do que produzir uma roupa do zero, principalmente quando falamos de Fast Fashion.
Quando discutimos o processo criativo, estamos falando de uma construção que leva um determinado tempo e trabalho, tendo em vista que novas peças são criadas a partir de outras. “Penso sempre em preservar a memória da roupa anterior, mantenho as costuras, bolsos, rasgos, remendos… Tudo vira linguagem para a minha marca. Trata-se de um trabalho artesanal, em que cada peça vai levar a uma história, um design diferente”, explica Luci.
Fotos: Reprodução/ Hidaka Upcycling
Talento que vira tendência
Algumas marcas constroem suas coleções com base em um propósito Slow Fashion. Esse movimento foi criado pela designer Kate Fletcher, do Centre for Sustainable Fashion de Londres, que decidiu repensar os produtos que consumimos na forma de produção e condições de trabalho, se baseando muito na proposta do Slow Food.
Em meio a essa missão mais ecológica, que faz os consumidores repensarem a qualidade das peças, a quantidade de produtos comprados, rever as matérias-primas utilizadas e o tipo de trabalho envolvido, surgem marcas como a Manuí Brasil. A empresa de Juliana Bastos vai totalmente no oposto do Fast Fashion, e enfrenta o grande desafio de produzir moda sustentável no Brasil.
Naturalmente sustentável
Tecidos de algodão são altamente duráveis e leves. Escolher o algodão é mais que escolher o conforto, isso porque, essa fibra natural é uma grande aliada na preservação ambiental. No Brasil, 75% do cultivo de algodão possui certificação socioambiental, gerando empregos e movimentando a economia do país.
Apesar de contribuir para o desenvolvimento de uma moda sustentável, nas últimas décadas, o consumo do algodão vem sendo inferior ao consumo de outras fibras, em especial as sintéticas. Se compararmos, tecidos de algodão levam cerca de 2 anos para se decompor no solo, enquanto o poliéster, que não é biodegradável, pode levar até 400 anos para se decompor.
Nesse contexto, surge o movimento Sou de Algodão, criado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) na busca de unir e valorizar os profissionais da cadeia, desde o produtor do campo até o consumidor final. Segundo Milton Garbugio, presidente da Abrapa, a iniciativa buscou identificar os fatores que levavam a perda de valorização do algodão. “Entendemos que o público havia se distanciado da percepção de valor dessa fibra natural tão essencial na vida das pessoas e importante para a economia do país. A indústria, muito voltada para o fast fashion encontrava vantagens econômicas em usar outras fibras. Para reverter esse cenário, lançamos o movimento Sou de Algodão na principal semana de moda brasileira, a SPFW, em outubro de 2016, entendendo que precisávamos, antes de tudo, sensibilizar os formadores de opinião e influenciadores desses públicos”, explica Garbugio.
Hoje, o Brasil é o maior produtor e fornecedor de algodão sustentável do mundo, certificado pelo Programa ABR (Algodão Brasileiro Responsável) e licenciado pela Better Cotton Initiative. “A conduta responsável do produtor, através da aplicação dos protocolos do Programa ABR, que é uma certificação socioambiental, entrega esse valor ao consumidor”, afirma Garbugio. “Ao escolher produtos feitos com algodão brasileiro, o consumidor carrega o valor de uma cadeia produtiva que proíbe o uso de mão de obra escrava, análoga ou infantil e o ambiente degradante de trabalho. O respeito pelo trabalhador, que tem garantidos todos os benefícios previstos em lei, além da preservação do solo, dos recursos hídricos e a conservação dos biomas das regiões onde a cotonicultura está presente”, conclui.
“Quem não tem uma memória afetiva com algum produto de algodão? Aquela camiseta ou a calça jeans que usamos até se acabar?”, questiona Garbugio. Se já não tivéssemos motivos suficientes para optar pelo tecido de algodão, ainda é possível destacar que 90% da produção brasileira da fibra é feita em regime de sequeiro, ou seja, as plantações dependem apenas da água da chuva para se desenvolver.
Valorizar o algodão é valorizar a sustentabilidade e o Feito no Brasil. Como bem pontuado por Milton Garbugio, “o algodão também torna possível a fabricação de produtos 100% nacionais, desde a matéria-prima”, já que somos o 4º maior produtor e 2º maior exportador da fibra no mundo. "Melhor ainda se esse algodão for beneficiado e transformado em produtos por marcas também responsáveis, no tripé da sustentabilidade: social, ambiental e econômico", lembra o presidente da Abrapa, destacando o papel das marcas na transformação da moda.
A reflexão gera solução
De acordo com o artigo "Moda Sustentável e Consumo Consciente: Desconstruindo padrões" de Betina Sehn Lopes "é preciso entender que os novos modelos de desenvolvimento sustentável não devem ser considerados um projeto já com prazo de validade estipulado, mas sim, incorporado ao espírito da empresa. A caminhada em direção à sustentabilidade, requer também uma ressignificação de valores, uma vez que, o modelo capitalista ao qual estamos habituados, também passa por mudanças, adotando princípios mais humanos, não visando apenas crescimento e lucro".
Betina ainda complementa "o papel do lojista, comprador e vendedor de moda, também é de extrema importância, pois não basta somente criar um produto inovador e com referências sustentáveis, se não for compreendido e aceito pelo mercado. Pessoas sem acesso às novas tendências e mudanças do comportamento de moda e da sociedade em geral, são influenciadas quase que diretamente pela mídia e mesmo por tudo que é visto nas vitrines, as quais precisam transmitir novos conceitos a seus clientes".
"A indústria da moda vem explorando cada vez mais recursos não renováveis causando grandes danos ao meio ambiente. Estes danos provocados pela moda passam despercebidos pela maioria das pessoas, mas têm impacto significativo, que novas marcas tentam reduzir. Junto ao novo cenário da moda, surgem novos modelos de negócios que chegam para dar um novo significado ao consumo", pontua Lopes.

Dar significado ao que estamos vestindo é o primeiro passo para fazer parte da mudança. Ressignificar peças, mudar hábitos e estudar mais sobre é o nosso papel diante da indústria da moda. Enquanto as marcas tentam se reinventar, você pode dar o primeiro passo, lembrando que a sustentabilidade precisa do equilíbrio dos 3 pilares (ambiental, social e econômico). Conscientização é a nova moda! E a tendência do futuro é ser sustentável!
Depois de entender um pouco mais sobre o assunto, está na hora de ver se você segue esses ideais. No quiz Qual é seu perfil de consumidor? você vai encontrar perguntas que no final vão te mostrar se você está seguindo um caminho mais sustentável na moda. Faz o teste e conta para a gente lá no nosso insta qual perfil tirou!


































Comentários