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Crônica: O dinheiro que não se compra

  • Foto do escritor: Vinícius Vieira
    Vinícius Vieira
  • 24 de mar. de 2022
  • 5 min de leitura


Do silêncio, um som. O alarme do despertador se inicia, programado em primeiro aviso às 4h15 da manhã. O cansaço é o primeiro obstáculo a ser vencido durante o dia. A guerra é contínua e, desta vez, Fortunato perdeu a batalha. Naquelas condições, não era impossível de imaginar que o acordar seria difícil. Ok, mais dez minutos de um possível descanso desesperado são obtidos e, às 4h25, o som toma conta do quarto de quatro metros quadrados.


O despertar, por conta do tempo extra gasto com o cochilo express, precisou ser mais rápido. Ao lado direito da cama, uma pequena porta dá caminho para o banheiro, de três metros quadrados. Uma pequena pia quase em cima da privada, o vaso em questão e, ao lado, um chuveiro. O banho deve ser de, no máximo, cinco minutos, para não se atrasar.


Depois da higiene desafiadora com uma escova de dentes velha, quase sem cerdas, o próximo passo é passar pelo resto da residência, se é que se pode chamar um local tão precário assim. Os armários para mantimentos presos na parede são um milagre da física. A umidade comeu os quatro cantos da sala e cozinha, compartilhadas em mais sete metros quadrados. As instalações não representavam tanta ameaça, afinal, os gabinetes estavam praticamente vazios. Vinagre, bicarbonato de sódio, colorau e um pacote de feijão ficavam até distantes na imensidão das prateleiras vazias. A pilha de roupas ao lado da geladeira era seu guarda-roupas. Qual roupa usar hoje? A menos amassada, talvez. A menos desbotada? Fechar os olhos e só escolher uma peça também era uma opção comum.


Depois de montar o “look”, sem nem tempo para um café, sai daquela casa, apelidada ironicamente de “caixa de fósforo” e fecha a porta. São alguns minutos perdidos tentando passar a tranca com uma fechadura velha e enferrujada. A testa franzida já deixa clara a preocupação e o medo de ter seus poucos e valiosos pertences roubados. Uma geladeira marrom, de 1987, que está com o freezer quebrado. As roupas quase emboloradas. Um fogão, também muito antigo e com corrosões do tempo. Uma cama quebrada. Talvez o chuveiro ainda valha algo.


Mais de uma hora e meia são gastos no transporte, isso em um dia “bom”. A chuva sempre é um percalço a mais e, embora seja uma alegria para uns, neste caso, era o maior pesadelo. Aquele era um dia bom. O céu limpo, com um sol escancarado, iluminava apenas as frestas entre o ônibus superlotado. O caminho não tinha nada de interessante a ser pontuado. Às 6h30, ao chegar na “fábrica”, montada quase na improvisação em um galpão velho no centro de São Paulo, já se ouve o barulho das máquinas em movimento e alguns funcionários já a todo vapor. Um grande relógio ocupava o espaço na parede antes ocupado por uma janela. Mas enganava-se quem pensasse naquele contador de horas como um meio de controlar o expediente. Ao menos não servia para controlar a hora de saída, era um contador de produtividade.


A fábrica de tecidos atendia várias lojas. Algumas pequenas com uma abordagem “personalizada”. Outras médias, espalhadas pelo Brasil. O maior cliente era a rede de classe alta, Esclavage Élégance: as maiores demandas, com os menores prazos e a maior fonte de lucros, ao menos para o dono daquela pequena indústria. A marca estava presente em pontos estratégicos: nas grandes metrópoles do país, divididas entre shoppings ou estabelecimentos em regiões nobres. Muitos dos funcionários produziam peças de alto valor no mercado e talvez nem se davam conta. Para eles, a loja em questão era apenas mais uma dentro de milhões fora de seu alcance.


O dia era marcado por apenas três intervalos: um, às 10h, para ir ao banheiro. O segundo, às 13h, para o almoço. O terceiro, às 16h, novamente para as necessidades fisiológicas. O patrão já até comentou para alguns que seu desejo era que os membros do “time” até usassem fraldas para evitar as pausas e ninguém soube responder se a fala foi brincadeira ou não. Diante de todas as circunstâncias, era provável que a ironia não estivesse presente.

A rotina de labor era comumente análoga à escravidão. O trabalho facilmente extrapolava 12 horas diárias. A exploração era constante e todos ali ganhavam entre R$ 600 e R$ 800 mensais. Em média, cada camiseta simples da Esclavage custava cerca de R$ 100, R$ 120 reais. Fortunato produzia umas cinquenta dessas ao dia. O aluguel da kitnet onde morava era R$ 350. Religiosamente, ele fazia o pagamento às segundas quintas-feiras do mês para o dono do imóvel. Tinha medo de atrasar, criar uma dívida e ser despejado. Com transporte público, eram quase R$ 200. Eliminando contas de luz, água e comida, com sorte, lhe sobrava ao máximo uns cinquenta reais para poder tomar um litrão no Bar do Zé.


Fortunato via como um privilégio e suspirava aliviado ao pensar que não tinha família. Seria uma despesa com a qual nunca conseguiria arcar. A solidão apertava, às vezes, mas o bolso era ainda mais apertado. Nos raros momentos de lazer, tinha uma pequena televisão, antiga também, na qual só funcionavam alguns poucos canais de sinal aberto. Talvez ele nem soubesse o que era “Discovery Home & Health” ou “E!”, tampouco saberia falar corretamente esses nomes. Estes eram os principais locais onde os produtos da Esclavage Élégance eram anunciados.


Quinzenalmente, seus domingos eram livres. Um dia, ainda pela manhã, viu no noticiário a inauguração de um novo shopping na região nobre do centro da cidade. A curiosidade foi o motor para que tirasse dos cinquenta reais livres os quase nove das passagens de ônibus para chegar até o local.


Ao entrar, quase foi barrado pelos seguranças. Ele nem questionou o motivo, mas ficou incomodado. Andou pelas vitrines, vislumbrado com tamanha elegância. As inúmeras palavras em inglês eram tidas com estranheza e, por vezes, humor. “Sale”, “VIP”, “5% Off”. Que língua era aquela? Definitivamente não era a sua. No terceiro andar das lojas, logo quando saiu da escada rolante, viu à frente um banner pendurado no teto com uma camiseta idêntica às que ele costumava produzir na fábrica. Até tomou um susto porque, na ignorância do dia a dia, nunca nem parou para pensar no motivo de produzir as peças. Foi aí que ele viu e foi introduzido, pela primeira vez, ao universo da Élégance. Ele nunca nem soube o nome da marca, afinal, quando tinha bordado nas roupas, eram apenas as iniciais “EE”. Ao andar um pouco mais, atônito ainda, se deparou com a vitrine da loja. Não era apenas uma entre as centenas de outras ali dentro daquela construção. O brilho, a iluminação, os perfumes eram outros. Ele se aproximou e viu, a cada passo, os looks montados com base na sua produção. Calças, camisas, camisetas, vestidos, tudo ali tinha o toque de Fortunato e seus colegas.


Naquele primeiro momento, ficou feliz, como se tivesse sido reconhecido pelo seu trabalho. O problema foi que teve o azar de perguntar à vendedora o preço daqueles produtos. Olhado de cima a baixo, teve uma resposta seca e desprezada. “Acredito que você esteja procurando outro tipo de loja”. Ele insistiu e explicou que ele mesmo era responsável pela fabricação de ao menos alguns daqueles itens expostos. A funcionária então lhe disse alguns dos valores. Fortunato se espantou.


Foi quase como uma epifania. Ali ele entendeu. Foi naquele momento, no inédito Shopping Deluxe, às 11h47 de um raro domingo livre, no meio da Esclavage Élégance, de uns duzentos metros quadrados, que compreendeu seu papel no mundo. O dinheiro que lhe era pago não era o dinheiro capaz de comprar o que ele mesmo produzia.


Fortunato fazia fortunas, mas não era rico. Fortunato servia aos ricos, mas não tinha prestígio. Fortunato deu sua vida, tempo e saúde, mas não foi recompensado. Fortunato era apenas um número para a fábrica. Fortunato nem sequer existia para quem adquiria os produtos que ele mesmo fazia. Fortunato era um ninguém, como muitos outros, até deixar de existir por completo.


 
 
 

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