Balaclava: escancara privilégios e racismo estrutural
- modasemmisterio

- 25 de mar. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 1 de abr. de 2022
Polêmica e desconexa da realidade, entenda o porquê de tanto debate entorno do acessório

Por Júlia Siqueira e Lucy Matos
A famosa touca que deixa à mostra apenas os olhos, recebe o nome de uma região localizada entre a Rússia e a Ucrânia, especificamente na Crimeia: a cidade portuária Balaclava. A peça tem esse nome por ser parte do uniforme dos soldados na Guerra da Crimeia, entre 1853 e 1856, com a função de mantê-los aquecidos nas baixas temperaturas do inverno.
Ao longo da história o acessório foi bastante vinculado ao anarquismo e a movimento de revolta, sendo muito usado por manifestantes separatistas pró-russos. Atualmente também é popular no esporte, especialmente entre pilotos de Fórmula 1, mantendo a sua função de proteger ainda mais a região do pescoço e da cabeça. E claro, o item se tornou um grande acessório fashion para quem vive em lugares frios do planeta.

Com presença em coleções e no street style das semanas de moda e grandes premiações do universo fashion, a Balaclava, que viralizou internacionalmente através de Kanye West, Travis Scott e outras celebridades do rap, tem também se popularizado e chegado ao grande público, estando disponível em lojas de departamento no mundo todo.
No Brasil não tem sido diferente, o styling com o acessório aparece até mesmo nas famosas trends do das redes sociais, como o "Arrume-se comigo". O viral foi potencializado pela influenciadora Malu Borges ao montar look no TikTok, utilizando e anunciando o lançamento de uma linha de balaclavas. Mas, se sua principal função não tem como ser exercida em um país de clima tropical, qual o sentido do acessório por aqui? A resposta é: nenhuma, apenas parte de mais uma tendência passageira. Mas, tudo isso seria revelado se não fossem dois principais pontos.
Primeiro ponto: o racismo estrutural. Enquanto blogueiras brancas viralizam a peça no tiktok e são vistas como grandes criadoras de tendências, a população negra é inviabilizada de usar uma Balaclava em seu dia a dia. Na realidade social brasileira, jovens pretos morrem, são rotineiramente abordados e revistados pela polícia simplesmente por usarem capuzes ou peças semelhantes.
Segundo pesquisa do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), 68% das pessoas abordadas andando a pé e 71% no transporte público do Rio de Janeiro são negras, enquanto pretos e pardos somam 48% da população da cidade. Os dados refletem uma cultura racial dentro das atividades policiais, mesma cultura que se reflete em todo o país. Ainda segundo a pesquisa, o "elemento suspeito” é aquele que tem, segundo os policiais entrevistados “bigode fininho, cabelo com pintinhas amarelas, blusa do Flamengo, boné”, o estilo do jovem das periferias.
É esse jovem, preto e periférico, que ao usar uma balaclava enfrentaria ainda mais episódios de racismo. Com seu ar de mistério e anonimato, o acessório recebeu com o tempo estereótipos racistas, sendo muito associado ao crime e as gangues, em especial nos Estados Unidos. Apesar de uma lenta ressignificação da peça, por parte de artistas que o incorporam em seu trabalho de forma ativista, como Beyoncé no clipe de “Superpower”, quando a Balaclava chega ao grande público, o único consumidor é a branquitude, em uma posição confortável não apenas para usar, mas para esvaziá-la dos seus aspectos culturais.
Segundo ponto: a intolerância religiosa. Mulheres muçulmanas enfrentam perseguição por usarem hijabs desde muito antes da Balaclava se tornar um item de desejo. O Hijab é um véu tradicional do Islamismo, que cobre o cabelo, as orelhas e o pescoço. Usá-lo ou não é uma escolha e, para aquelas que escolhem usar, o hijab é símbolo de sua fé, suas origens e sua identidade.
A França proibiu o uso do véu islâmico dentro de escolas públicas em 2004 e em 2011 foi proibido o niqab, véu que cobre todo o rosto, em lugares públicos. No Brasil, apesar de não haver uma proibição pela lei, as mulheres muçulmanas são oprimidas pela islamofobia, sendo as de classe média baixa, jovens e acima de 40 anos, as mais vulneráveis, segundo estudos da pesquisadora Francirosy Campos. Então porque usar a Balaclava é visto como cool, enquanto mulheres muçulmanas sofrem com a opressão e têm direitos violados ao serem proibidas de usar o hijab até mesmo na capital da moda, Paris?
A popularização da Balaclava escancara privilégios e discrepâncias sociais e culturais, por isso não pode ser enxergada apenas como mais um must-have no universo fashion, é preciso compreender a peça a partir de todas as suas camadas histórico-sociais, para que não potencialize o racismo e a misoginia.








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